8# ARTES E ESPETCULOS 4.6.14

     8#1 LIVROS  HUMOR FIRME, TRAO FORTE
     8#2 LIVROS - BOM-SENSO INGLS
     8#3 ARTE  O PROFETA DO CINISMO
     8#4 CINEMA  TUDO DE MENTIRINHA
     8#5 VEJA RECOMENDA
     8#6 OS LIVROS MIAS VENDIDOS
     8#7 J.R. GUZZO  AGORA, S REZANDO

8#1 LIVROS  HUMOR FIRME, TRAO FORTE
Da crnica de costumes ligeira  corrosiva stira poltica, durante cinco dcadas o cartunista Fortuna desenhou um retrato irreverente e agudo da vida nacional.
MRIO MENDES

     A expresso to em uso hoje em dia "entendeu ou quer que eu desenhe?" no teria serventia para o cartunista Fortuna (1931-1994). Ao longo de quase cinquenta anos, Fortuna mandou seu recado quase que exclusivamente desta forma: atravs do trao a princpio ingnuo  fortemente influenciado pelas histrias em quadrinhos  e, mais tarde, extremamente pessoal, contundente e direto. Era ver e se divertir, s vezes com certo espao para a reflexo sobre o momento, os personagens e as situaes que ele satirizava, ou desancava mesmo, com surpreendente leveza e economia de recursos. "Fortuna era um cavalheiro, dono de um humor eficaz. E a limpeza grfica de seu trabalho revela tambm sua clareza mental" analisa o caricaturista Cssio Loredano, colaborador de VEJA e responsvel pela organizao dos desenhos, charges, ilustraes e cartuns reunidos em Fortuna  O Cartunista dos Cartunistas (Pinakotheke; 256 pginas; 89 reais). Ou, como explicou o prprio Fortuna em uma entrevista de 1970: "Quero que meu trao seja minha prpria caligrafia. No quero fazer desenhos, quero estar nos meus desenhos". 
     O maranhense Reginaldo Fortuna  que no incio da carreira, no fim da dcada de 40 assinava com o pseudnimo Ricardo Forte  faz parte da gerao de artistas e intelectuais que tiveram o melhor de seu trabalho produzido no perodo imediatamente anterior ao golpe de 1964 e, sobretudo, durante os anos carrancudos da ditadura, quando s vezes tentavam driblar os censores e outras vezes se engajavam em embates diretos com eles (ainda que, como pondera o poeta Ferreira Gullar no prefcio, os humoristas no tivessem sido to visados porque os militares "temiam cair no ridculo de os levarem to a srio"). 
     A verdade  que os desenhos de Fortuna, at ento voltados para a crnica de costumes com que se tornara conhecido na revista A Cigarra, assumiram o tom de stira poltica plena em suas colaboraes nas pginas de Pif-Paf, publicao criada por Millr Fernandes, e no jornal carioca Correio da Manh, editado pelo escritor Antonio Callado e francamente contrrio ao regime militar. Fortuna passou ento a utilizar a fora do trao para enfatizar a comicidade inevitvel do autoritarismo empolado dos novos mandatrios  como na cena do general que despacha no gabinete montado em seu cavalo, ou na placa do cartrio que avisa aos pais que "todos os nascidos a 1 de abril devem ser registrados na vspera". Essa trajetria de crtica corrosiva atingiu o pice quando Fortuna participou da criao do emblemtico O Pasquim com, entre outros, os jornalistas Tarso de Castro e Srgio Cabral e o tambm cartunista Ziraldo. Insolente, anrquico e muito engraado, o semanrio carioca acabou custando a seus idealizadores uma temporada na cadeia, em 1970. 
     O episdio provocaria outra mudana no desenho do cartunista, como observa seu filho, o poeta e diplomata Felipe Fortuna: "Depois da priso, meu pai se revelou ainda mais radical ao criar a srie Madame e Seu Bicho Muito Louco". Eram esquetes de traado simples e humor nonsense em que a gordota e deslumbrada Madame brigava e era exposta ao ridculo pelo tal Bicho Muito Louco, um cachorro manhoso e gozador. A dupla era uma espcie de alternativa alucinada aos outros cartuns emblemticos de O Pasquim  o ratinho Sig de Jaguar e os padrecos Baixinho e Cumprido de Henfil  e acompanhou Fortuna quando, em 1975, ele criou a revista de quadrinhos O Bicho, na qual surgiu uma gerao de desenhistas que inclui Laerte. 
     Mais velho, j menos radical mas ainda apoiado no humor, Fortuna tambm se dedicava a outros projetos, como ilustraes e capas de livros. Foi assim que chegou a VEJA, na qual atuou como editor de arte, ilustrador e capista entre 1974 e 1976. A essa altura, ele j era considerado um mestre em seu mtier. Colaborava com frequncia nas revistas O Cruzeiro e PLAYBOY e no jornal Folha de S.Paulo, e, nas capas de VEJA, aventurava-se em experimentos grficos inusitados, como a utilizao de tinta de parede. Em um texto publicado originalmente em 1983 e includo no livro, o italiano Pietro Maria Bardi, fundador e diretor do Masp, defende a ideia de que Fortuna era um pintor que se exprimia no setor da caricatura. O cartunista, em certo sentido, corroborava ele prprio essa tese: dizia preferir a caricatura por ela ser o equivalente grfico da literatura, uma vez que abrangia vrios gneros, da charge poltica explcita ao humor que se concentra apenas no trao e dispensa o texto. 
     Apesar da longa carreira de Fortuna e de sua presena marcante na cena de seu tempo, Loredano no considera que o cartunista tenha influenciado o desenho de humor que se faz hoje no Brasil: "Ningum deu continuidade ao trabalho de Fortuna. Ele teve uma trajetria solitria e, ademais, o que se v no setor hoje  cafajeste demais". A irreverente viso de Fortuna sobre a vida brasileira foi interrompida por um infarto fulminante em 5 de setembro de 1994. Uma charge publicada no mesmo dia serviu como ponto final. Nela, o Sr. Tempo, de foice e ampulheta em punho, se queixa desolado depois de ter o pedido de crdito reprovado: "Tempo no  mais dinheiro", lamenta. Uma amostra exemplar do que o cartunista definia como fundamental no humor a bico de pena: simplicidade e espontaneidade. 


8#2 LIVROS - BOM-SENSO INGLS
O ltimo livro de Tony Judt atesta sua serena oposio s ideologias que querem explicar  e destruir  tudo.
EDUARDO WOLF

     Em um saboroso episdio das memrias do historiador ingls Tony Judt (1948-2010), somos levados  Paris de 1970, mais especificamente  clebre cole Normale Suprieure, repleta de "autointitulados maoistas", tpico subproduto acadmico francs das revoltas de maio de 1968. Conta Judt que um desses maoistas costumava defender a tese de que a grande Bibliothque des Lettres deveria ser destruda para "fazer tabula rasa do passado". Aps tentar  sem sucesso  explicar racionalmente o equvoco de to radical posio, o jovem Judt encerrou a conversa dizendo que, com o tempo, o colega veria as coisas de modo diferente. "Uma concluso muito inglesa", disse o francs. Estava certo: o episdio capta com preciso tanto a singular tendncia da intelectualidade francesa do sculo XX para aderir a doutrinas abstratas, verdadeiros repositrios de decises universais, quanto a marca distintiva da melhor linhagem do pensamento britnico  o apreo pelo bom-senso e pela experincia acumulada. 
     Pensando o Sculo XX (traduo de Otaclio Nunes; Objetiva; 432 pginas; 49,90 reais, ou 29,90 na verso digital) preserva algo da vivacidade e da leveza que marcaram a prosa do belo O Chal da Memria, de 2010, no qual se narra a conversa com o maoista francs. Do mesmo modo, vemos em ao ao longo de todo o livro o historiador rigoroso e sensvel do aclamado Ps-Guerra, de 2005. E unindo as virtudes de ambas as obras est o humanista engajado na compreenso da complexidade de nossas experincias histricas, e que por isso mesmo evita o simplismo que a adeso aos grandes esquemas explicativos das ideologias sempre exige. Da evocao do ambiente familiar  narrativa da tragdia dos povos do Leste Europeu, vtimas que foram dos maiores horrores de nosso tempo (nazismo e comunismo), passando pelo interesse de juventude na vida intelectual francesa, os temas que marcaram o trabalho de Judt reaparecem em seu livro derradeiro com a mesma reflexo nuanada e imaginativa da obra anterior. 
     Da famlia dos "livros em tom de conversa", Pensando o Sculo XX  fruto de encontros do tambm historiador Timothy Snyder com Judt ao longo de 2009, quando este se encontrava j bastante debilitado pela esclerose lateral amiotrfica (ELA), mal degenerativo diagnosticado um ano antes e que logo levaria o autor  morte. Nas palavras do prprio Snyder, o livro  uma defesa da conversa (que ele conduz  perfeio, alis) e, mais ainda, da leitura, j que a memria de Judt mobiliza sua biblioteca mental para reconstituir sua biografia e a histria de seu tempo. Poucas so as obras que, na fronteira entre a histria e a biografia, conseguem se impor ainda, e talvez sobretudo, pela qualidade da reflexo moral  que propem. Judt  exitoso em unir todas essas dimenses a cada passo da conversa, quer avaliando a transformao gradativa do Holocausto em uma questo central para os europeus, quer analisando, em sntese brilhante, a psicologia moral daqueles que cometeram o grande pecado intelectual do sculo XX: "Fazer um julgamento sobre o destino de outros em nome do futuro deles tal como voc o v". Os clculos com o futuro alheio so, para Judt, um problema moral, e no de poltica ou economia. Foram, afinal, a justificativa corrente daqueles que julgam aceitvel, quando no desejvel, a morte politicamente planejada de milhes de seres humanos, desde que em nome do "grande amanh". 
     Como Judt, educado em ambiente familiar socialista, que ainda cultivava a "lenda de um 'comunismo que poderia ter sido'"  o trotskismo , conseguiu driblar uma iluso como essa, que atravessou o sculo? Uma parte da resposta est na biografia intelectual do autor, especialmente no contato que travou com intelectuais do Leste Europeu  em particular na extinta Checoslovquia, testemunhando a energia dos valores liberais em uma sociedade dominada pela opresso. Mesmo esse episdio de sua carreira, contudo, poderia ser compreendido  luz do contato com o pensamento do grande pensador liberal deste sculo, Isaiah Berlin, que marcou Judt profundamente. Abraando o pluralismo no sentido prprio que encontramos na obra de Berlin, Judt aprendera a reconhecer que "todas as teorias polticas eram, por sua prpria natureza, relatos parciais e incompletos das complexidades da condio humana, e tanto melhor que fossem assim". O pluralista berliniano que Judt se tornou, contudo, j estava nele muito antes, quando dispensou a necessidade de argumentos para saber que no devemos destruir bibliotecas em nome de ideologias. E continuou nele at o fim. Judt viveu fascinado pela complexidade humana, lanando este grande protesto contra a morte que  a defesa da histria e da memria.


8#3 ARTE  O PROFETA DO CINISMO
O catalo Salvador Dali foi a encarnao mais notria de um pintor modernista. Uma mostra no Brasil revela qual o valor do artista e do personagem que ele fez de si mesmo.
MARCELO MARTHE

     Na rotina do pintor catalo Salvador Dali (1904-1989), o suor diante do cavalete representava, em estimativa generosa, uns 50% da receita do sucesso. Os restantes 50% decorriam de outro esforo. "Toda manh, ao despertar, exercito um prazer supremo: ser Salvador Dali", escreveu ele. A modstia definitivamente no era um tom que se encontrasse na paleta de cores do artista: "Eu me pergunto, maravilhado, que coisas prodigiosas ele far hoje, este Salvador Dali". Arte e autopromoo andavam de mos dadas na obra do pintor surrealista. Com seu bigodo sinuoso e disposio sem trgua para escandalizar, Dali superou at seu compatriota Pablo Picasso em matria de notoriedade. No h encarnao mais vistosa daquele espcime to tpico da fauna cultural do sculo XX, o artista plstico modernista. Em cartaz desde sexta-feira no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, a exposio Salvador Dali , se no a maior, decerto a mais criteriosa retrospectiva do pintor j vista no Brasil. Orada em 9 milhes de reais, compe-se de 150 telas, desenhos, gravuras e itens de memorabilia vindos de dois museus espanhis, o Reina Sofia, em Madri, e a Fundao Gala-Salvador Dali, da sua Figueres de origem, alm de uma terceira instituio americana, o Museu Dali, na Flrida. A mostra, que em outubro chegar ao paulistano Instituto Tomie Ohtake,  a chance de dirimir a dvida: at que ponto o artista Salvador Dali sobrevive sem o personagem Salvador Dali? 
     Os dois lados, afinal, se retroalimentaram desde cedo. Na juventude, Dali se aproveitou do instante de fama conquistado com a expulso de uma escola de arte para se vender como um rebelde  frente de seu tempo. Em seguida, transferiu-se para Paris, onde abraou com espalhafatosa energia o surrealismo, movimento de vanguarda liderado pelo poeta Andr Breton. Foi nessa fase, do fim dos anos 20 aos 30, que produziu o melhor de sua obra: telas nas quais pessoas, animais, objetos e paisagens se fundem em composies inslitas. O gosto do pintor pela combinao desconexa de referncias fica patente em Composio Surrealista com Figuras Invisveis, de 1936: no centro de uma paisagem desolada, uma cama e uma poltrona surgem vazias, mas conservam os contornos dos corpos ausentes. A obra  um exemplo da fixao surrealista pelas teorias de Sigmund Freud (1856-1939). Dali se valia daquilo que batizou de "Mtodo Paranoico-Crtico" na tentativa de representar o fluxo do inconsciente e dos sonhos. 
     A represso sexual  a pimenta que confere um qu indecoroso a seus quadros. Aqui e ali afloram formas alongadas que lembram o rgo sexual masculino. H quem veja nos relgios amolecidos de uma obra famosa (que no consta da mostra), A Persistncia da Memria, de 1931, uma aluso  impotncia  mal de que o prprio pintor sofria. Outro fetiche onipresente nas telas  sua mulher, Gala. Russa e dez anos mais velha, ela exercia a influncia de uma dominatrix sobre o artista. Dali fazia vista grossa s investidas de Gala sobre os garotes. Ele mesmo, alis, tinha telhado de vidro. Segundo o crtico ingls Brian Sewell, a temtica do onanismo no aparecia por acaso em suas telas: Dali adorava ver rapazes se estimulando em sua presena. Sewell tinha conhecimento de causa  ele prprio teria sido um desses rapazes. 
     Dali sentia um prazer quase sexual por algo mais: a bufunfa. Em 1939, Breton expulsou-o do grupo surrealista e criou um anagrama com o nome do espanhol para denunciar seu apetite por dinheiro: "Avida Dollars" (vido por dlares). Ao se mudar para os Estados Unidos, durante a II Guerra Mundial, Dali perdeu de vez o pudor em ser picareta. Pintou retratos de famosos e ricaos s para ficar bem na foto nas colunas sociais. Alm disso, adotou o hbito de assinar papis em branco para ser convertidos em obras falsificadas. Foram 50.000 deles, a 10 dlares cada um. 
     H consenso de que, a partir dos anos 40, a obra de Dali perdeu a radicalidade visual e poltica de outrora. Seu surrealismo passou a se repetir como diluio de si mesmo, tornando-se mero item de entretenimento. O artista,  verdade, sempre buscou renovar a temtica de seu trabalho, incorporando assuntos da ordem do dia, como a fsica moderna. Dentro do estilo que ele batizou de "atomismo mstico" est a engenhosa tela A Mxima Velocidade da Madona de Rafael, de 1954, em que a imagem renascentista se decompe em partculas. Mas a j se percebe o vazio de seu virtuosismo: por trs de tanta estranheza havia uma pintura convencional, por vezes at acadmica. O encontro que Dali teve com seu dolo Freud, na velhice do criador da psicanlise, diz muito sobre a sensao de envelhecimento precoce que se tem diante de suas obras de qualquer perodo. Freud apontou o artificialismo de sua tentativa de retratar os sonhos. "No  o inconsciente que vejo em suas pinturas, e sim o consciente", tascou. Ou seja: trata-se de uma busca calculista  e fracassada  de fazer uma traduo da vida interior. Tecnicamente, esclareceu Freud, era uma manifestao do ego do artista. Um ego imenso, por sinal. Dali no ia, portanto, alm da superfcie. O que talvez explique por que at suas telas mais impressionantes no atingem o estado mais elevado do sublime, como toda grande obra de arte. 
     O ensinamento de Henri Matisse  mestre do modernismo que, ele sim, conseguia atingir esse estado superior  d outra pista para a razo de a obra de Dali ter envelhecido to mal. "Um artista nunca deve ser: prisioneiro de si mesmo, prisioneiro de um estilo, prisioneiro de uma reputao, prisioneiro de um sucesso", pontificava o pintor francs. Dali se aprisionou em todas essas armadilhas. E assim se responde  questo inicial: o personagem foi, claro, maior que sua obra. Inclusive porque a figura do dndi louco por publicidade e dinheiro antecipou a conduta tpica das estrelas da arte contempornea. O dptico O P de Gala, em que ele se retrata ao lado da mulher, enquanto ela mostra a sola do p com uma reproduo da molcula do DNA ao fundo,  uma prola do kitsch e da auto-complacncia. O americano Andy Warhol, seu filhote pop legtimo, no faria  melhor. Dali foi o profeta do cinismo. 


8#4 CINEMA  TUDO DE MENTIRINHA
Malvola se pretende uma verso inovadora de A Bela Adormecida, mas  a plateia que vai cair no sono. 

     Angelina Jolie, a fada das causas humanitrias, aparece com olhos de um verde inatural e impressionantes chifres retorcidos para interpretar a bruxa rancorosa que condena uma princesa ao sono eterno: no trailer, a ideia parece um arraso. Os cenrios, fotografados em luz tempestuosa, evocam os contornos de pesadelo que os contos de fadas tm na sua origem  em particular A Bela Adormecida, talvez o mais atvico deles em seu retrato do mal como um elemento do destino do qual nem os mais inocentes podem ser protegidos. No menos relevante  o fato de que no h estdio que entenda mais de bruxas e princesas que a Disney, que produz Malvola (Maleficent, Estados Unidos, 2014), j em cartaz no pas. E, no entanto, esta verso pretensamente inovadora do conto clssico, na qual a narrativa se desloca da princesa para se centrar sobre sua algoz,  soporfera. Muito antes de Aurora (Elle Fanning) picar o dedo na agulha envenenada de uma roca e cair no seu sono enfeitiado, o espectador j estar lutando para manter os olhos abertos.  difcil dizer se as crianas estaro mais despertas: acostumadas ao dinamismo dos desenhos animados (em parte, alis, pela prpria Disney), no  improvvel que se aborream com o ritmo de Malvola. 
     Ou, melhor dizendo, sua falta de ritmo: dirigido pelo estreante Robert Stromberg, recrutado nos departamentos de efeitos visuais, o filme funciona melhor  ou s funciona  como um enfileirado de belos tableaux. Nunca se viu tanto ator parado olhando para o cenrio quanto aqui. Stefan (Sharlto Copley), o rapaz pobre mas ambicioso, fica paradinho para apreciar Malvola, a fada de lindos chifres e imensas asas por quem se apaixonou. As criaturas do reino encantado de Malvola olham todas umas para as outras. Diaval (Sam Riley), o corvo que s vezes assume forma humana, olha Stefan tramando suas intrigas  como roubar as asas de Malvola para assim ganhar a coroa do reino vizinho. Malvola a toda hora para e contempla Aurora, a filha de Stefan, a quem amaldioou no nascimento mas por quem terminou se afeioando. Stromberg est to perdido entre as criaturas vivas que no consegue bolar uma nica interao entre Aurora e suas fadas madrinhas, interpretadas pelas inglesas Imelda Staunton, Lesley Manville e Juno Temple. Se o filme fosse a nica amostra do trabalho delas, ningum adivinharia sua comprovada competncia. Assim como Angelina, Elle, Riley e Copley, elas soam artificiais, desorientadas e fora de clave. 
     Em entrevista a VEJA, o produtor de Malvola, Don Hahn, que tem em sua carreira marcos como A Bela e a Fera e O Rei Leo, falou com muita inteligncia sobre o desafio de engajar plateias sofisticadas como as de hoje num conto de fadas. Personagens de carne e osso, com os quais o espectador possa se envolver de maneira primordial, seriam a nica forma de garantir o efeito que se pretende, disse ele. Nem sempre, porm, saber o que  preciso fazer equivale a conseguir faz-lo. Ainda assim, pode ser que Malvola atinja, na bilheteria, o xito de outras empreitadas similares da Disney, como o Alice no Pas das Maravilhas de Tim Burton ou o Oz: Mgico e Poderoso de Sam Raimi. Como eles, Malvola  uma fantasia pesadamente apoiada em efeitos e visual de primeira linha  mas decepcionante em todos os outros aspectos criativos. 
ISABELA BOSCOV


8#5 VEJA RECOMENDA
DISCOS 
DE L NO ANDO S, TRANSMISSOR (INDEPENDENTE)
 O Estado de Minas Gerais monopolizou o pop brasileiro dos anos 1990, com bandas como Skank, Jota Quest e Pato Fu. Nova expresso do pop mineiro, o Transmissor, surgido em 2007, lembra pouco a mistura de reggae, soul, rock e msica regional que caracterizou a linguagem de seus antecessores. A conversa do grupo  com o rock alternativo americano, sobretudo com veteranos dessa vertente, como Wilco e Flaming Lips. As canes do Transmissor so acessveis, deliciosas, com uma personalidade difcil de encontrar entre tantos imitadores do Los Hermanos que ainda pululam por a. H um belo casamento das vozes de Jennifer Souza, Leonardo Marques e Thiago Corra (que ainda se desdobram na guitarra, no violo e nos teclados). De L No Ando S  o terceiro lbum do Transmissor e o primeiro a ser pilotado por um produtor  Carlos Eduardo Miranda, que trabalhou com Raimundos e Cansei de Ser Sexy. So doze grandes canes, marcadas pelo pop (Mais Quente do que Quis, Nossas Horas), reggae (Todos Vocs) e trip hop (Retiro). O disco pode ser baixado de graa no site www.transmissor.tv.

MINHA DOLORES, NINA BECKER (JOIA MODERNA)
 Em Minha Dolores, a carioca Nina Becker se debrua sobre o repertrio de Dolores Duran (1930-1959). O disco inclui criaes da prpria cantora e compositora, em parceria com msicos como Tom Jobim e Lcio Alves, e canes de outros autores que Dolores costumava visitar. Avessa  banalidade, Nina no se contenta em fazer uma releitura da antecessora: ela se apropria de Dolores Duran. Sua voz pequena e delicada contrasta com o cantar dramtico e os arranjos suntuosos da homenageada. Em faixas como Coisa Mais Triste e Solido, o canto dodo de Nina provoca a mesma sensao de tristeza que os vocais derramados das gravaes originais. O violo de sete cordas de Lucas Porto e o bandolim de Luis Barcelos (que brilha em Estrada do Sol) do suporte  interpretao elegante de Nina Becker. H ainda participaes muito especiais do baterista Marcelo Callado, do tecladista Ricardo Dias Gomes e do guitarrista Pedro S, autor do timo solo de Feiura No  Nada. Minha Dolores ser lanado em CD na segunda semana de junho, mas j pode ser comprado nas lojas virtuais e est disponvel para audio no site www.minhadolores.com.

TELEVISO
THE NORMAL HEART (ESTADOS UNIDOS, 2014. ESTREIA NO SBADO 31, s 22H, NA HBO)
 No comeo dos anos 80, o balnerio de Fire Island, perto de Nova York, era um cintilante reduto gay, no qual ainda mal se percebiam os primeiros estragos da nova doena que dizimaria a comunidade homossexual. Diante da escalada da aids, no entanto, o escritor Ned Weeks (Mark Ruffalo) ousou quebrar um tcito pacto de silncio. Convertendo-se num militante agressivo e um tanto quixotesco, ele comprou brigas para todos os lados: contra a postura hipcrita do ento prefeito nova-iorquino, o desdm do governo americano em relao a uma molstia que s atingia um nicho marginal da populao  e os prprios gays, que ignoravam seu alerta sobre os riscos do comportamento promscuo, at ento adotado como bandeira libertria. The Normal Heart se baseia na pea escrita no auge do furaco da aids pelo escritor Larry Kramer, ele mesmo portador do vrus HIV. Com direo de Ryan Murphy, da srie Glee, o telefilme  uma bvia pea de militncia e peca pela histeria de certas atuaes  inclusive a de Mia Roberts no papel da mdica Emma Brookner. Mas nada disso subtrai o impacto de sua mensagem: o escapismo coletivo pode agravar um quadro devastador por si s. 

LIVROS
UM LONGO CAMINHO, DE SEBASTIAN BARRY (TRADUO DE CECLIA PRADA; BERTRAND BRASIL; 378 PGINAS; 50 REAIS)
 Este romance histrico do irlands Sebastian Barry foi lanado em 2005, mas  traduzido no Brasil, oportunamente, no ano em que se lembra o centsimo aniversrio da I Guerra Mundial. O heri da histria  Willie Dunne, o filho de um policial de Dublin que, com apenas 17 anos, vai lutar no conflito que se travava na Europa continental. Barry descreve os cenrios desoladores da guerra com contundncia, mas sem perder a dico quase lrica estabelecida desde as pginas iniciais, sobre o dia do nascimento do protagonista ("o sculo estava velho e fraco, mas os homens falavam de cavalos e impostos"). O drama do infeliz Willie Dunne no se limita ao amadurecimento nas circunstncias traumticas da guerra de trincheiras: especialmente depois da Pscoa de 1916, quando acontecem levantes nacionalistas na Irlanda, os soldados irlandeses comeam a ser vistos com desconfiana pelos ingleses. Dunne, que a princpio no se interessa por questes polticas, sente suas lealdades se dividirem, ao mesmo tempo em que perde a inocncia nos campos de batalha.

O SALMO DA DVIDA, DE DOUGLAS ADAMS (TRADUO DE FABIANO MORAIS; ARQUEIRO; 304 PGINAS; 29,90 REAIS, OU 19,90 NA VERSO DIGITAL)
 Escritor, roteirista de rdio e TV e ativista de causas ambientais, o ingls Douglas Adams (1952-2001) foi uma figura excntrica entre os autores de fico cientfica. Seu conhecimento de biologia e cincia da computao era bastante slido (ele se orgulhava do nome completo, Douglas Nol Adams, que formava a sigla DNA). Mas suas especulaes sobre civilizaes aliengenas e tecnologias futuristas no devem ser levadas a srio: a srie de livros O Mochileiro das Galxias, que consagrou Adams,  uma pardia, uma espcie de cruzamento de Jornada nas Estrelas com o humor anrquico do grupo ingls Monty Python (com o qual, alis, Adams colaborou). O Salmo da Dvida  um livro pstumo, reunindo textos e projetos que Adams tinha em seu computador. Uma verdadeira miscelnea: inclui um romance inacabado protagonizado pelo "detetive holstico" Dirk Gently, entrevistas, artigos de jornal, peas curtas de fico. Em todos os textos, aparece a estranha conjuno operada por Douglas Adams: o rigor cientfico casado ao humor nonsense. 


8#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA
2- A Escolha. Kiera Cass. SEGUINTE 
3- Quem  Voc, Alasca? John Green. MARTINS FONTES
4- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
5- Divergente. Veronica Roth. ROCCO 
6- Belo Casamento. Jamie Macguire. VERUS
7- Insurgente. Veronica Roth. ROCCO 
8- O Teorema de Katherine. John Green. INTRNSECA
9- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
10- A Menina que Roubava Livros. Markus Zusak. INTRNSECA 

NO FICO
1- Demi Lovato  365 Dias do Ano. Demi Locato. BEST SELLER
2- O Ru e o Rei. Paulo Cesar de Arajo. COMPANHIA DAS LETRAS
3- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA 
4- A Estrela que Nunca Vai Se Apagar. Esther Earl. INTRNSECA 
5- Guia Politicamente Incorreto do Futebol. Jones Rossi e Leonardo Mendes Junior. LEYA BRASIL
6- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO 
7- Pitadas da Rita. Rita Lobo. PANELINHA 
8- O Livro das Religies. Vrios. GLOBO 
9- O Livro da Psicologia. Nigel Benson. GLOBO 
10- O Livro da Filosofia. Vrios. GLOBO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
2- Pais Inteligentes Formam Sucessores, No Herdeiros. Augusto Cury. BENVIR
3- Foco. Daniel Goleman. OBJETIVA 
4- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
5- Eu Me Chamo Antonio. Pedro Gabriel. INTRNSECA 
6- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM 
7- O Monje e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE 
8- Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER 
9- Crianas Francesas No Fazem Manha. Pamela Druckerman. FONTANAR 
10- A Magia. Rhonda Byrne. SEXTANTE


8#7 J.R. GUZZO  AGORA, S REZANDO
     Mais alguns dias, j na semana que vem, comea finalmente essa Copa do Mundo que fez o governo brasileiro exibir a si prprio e ao resto do planeta alguns dos piores momentos de toda a histria do Brasil como pas de segunda categoria. O que d vontade de dizer, nessa hora, : "At que enfim". Com a bola rolando, e os melhores jogadores de futebol do mundo em campo, explode, sem controle de nenhuma fora conhecida, a emoo incomparvel que s os jogos heroicos conseguem criar  com seus momentos sublimes de habilidade sobrenatural, a crueldade dos acasos ou os milagres de ltimo minuto. No caso da Copa de 2014, junto com o primeiro jogo vem a esperana de que o futebol, a mais potente magia esportiva jamais criada pelas sociedades humanas, possa proporcionar aos brasileiros um momento de alvio numa tirania de sete anos que os governos do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff impuseram  populao durante os preparativos para o grande evento. Que tipo de tirania? Simples: a que forou o pas a testemunhar (e a pagar por) uma exibio indita de incompetncia em engenharia elementar, e de arrogncia na negao de sua prpria inpcia.  
     "J perdemos a Copa fora do campo", disse o deputado Romrio de Souza Faria. "Agora s nos resta rezar para irmos bem l dentro." Ningum poderia resumir melhor a realidade do que Romrio. Antes mesmo do primeiro jogo, nada mais sobra daquela Copa de 2014 que Lula, em 2007, festejou como a glria mxima de seu governo. Prometeu, na ocasio, fazer a "melhor" Copa que o mundo j tinha visto desde a primeira, em 1930, um empreendimento que transformaria a vida das classes populares com quantidades prodigiosas de obras pblicas e mais uma tonelada de pura conversa mole. Desde ento o que aconteceu na vida real foi um massacre de mentiras oficiais, de humilhaes na obedincia servil a exigncias feitas fora do Brasil e de suas leis e de promessas grosseiramente no cumpridas  como a de que no seria gasto "um tosto" de dinheiro pblico na Copa, quando no fim das contas o Errio vai pagar quase 100% dos custos. Os famosos benefcios para a populao, como a "mobilidade" e outras palavras tolas inventadas para fazer propaganda de fantasias, so uma piada  as obras esto atrasadas, so de m ou pssima qualidade ou simplesmente foram abandonadas. "Estou envergonhado de ser brasileiro", disse Ronaldo Nazrio, at h pouco um dos mais entusiasmados promotores oficiais da Copa. Ronaldo, por sinal, lembra que todas as exigncias da Fifa (que a presidente Dilma, agora, exige que lhe tirem "das costas") foram aceitas em 2007, sem discusso alguma, pelo governo brasileiro. 
     No tendo como responder  sua incapacidade, comprovada em sete anos, de organizar a Copa, o PT e admiradores fazem o de sempre: ficam agressivos e falam bobagens desesperadas. O primeiro a sacar o revlver foi o prprio Lula: disse que era uma "babaquice" reivindicar metrs que chegassem aos portes dos estdios. Toda a ideia que sustenta o metr, em qualquer lugar do mundo,  exatamente esta: levar o mximo de pessoas ao ponto mais prximo possvel dos lugares aonde queiram ir. Para o ex-presidente, isso  um luxo idiota de que o brasileiro no precisa. "Vo a p, vo descalos, vo de jumento", concluiu. Como  que um homem que se considera o maior lder popular do mundo fala uma coisa dessas? Como um cidado que construiu toda a sua vida dizendo que  um trabalhador pode tratar assim os trabalhadores  os mais necessitados de transporte coletivo de boa qualidade? No mesmo embalo, revelou que no estava preocupado em saber se a Copa ia movimentar "30 ou 40 bilhes de dlares'' na economia brasileira  a seu ver, uma mixaria. Por que, ento, no disse isso sete anos atrs? Lula, no fim das contas, no ter dificuldades de transporte  j anunciou que no vai comparecer a nenhum jogo da Copa. No faz nexo: se era uma obra to fabulosa, como  possvel que bem agora, no que deveria ser seu maior triunfo, ele diga que no vai a "nenhum" jogo? Justo ele, que inaugura at maquete de abrigo de nibus? Lula disse que prefere ver a Copa pela TV, pois ter muito mais conforto do que em seus estdios, tomando "uma cervejinha". Cervejinha coisa nenhuma. No vai porque tem medo de levar uma vaia que ficar na histria. A Copa de 2014 era para ser uma coisa. Saiu outra. Pacincia. O nico remdio para isso chama-se coragem moral  a hombridade de que cada um precisa para assumir as consequncias de seus atos.  artigo que saiu de linha no governo. 


